Outubro 23, 2006

Escrever é ...
"Deus do céu, agora são 6h45 e a cápsula começou a fazer efeito de verdade. Antes de um verde monótono, o metal da máquina de escrever tornou-se uma espécie de azul muito lustroso, e as teclas faíscam e centelham, cheias de pontos de luz... eu meio que levitei na cadeira, pairando sobre a máquina de escrever em vez de ficar sentado. Tudo irradiava um brilho fantástico, luzidio e envernizado com alguma iluminação especial... e em termos físicos o negócio parece a primeira meia hora da viagem de ácido, uma espécie de zumbido onipresente, a sensação de estar agarrado por alguma coisa, vibrando por dentro mas sem nenhum sinal ou movimento exterior. É incrível que eu ainda seja capaz de datilografar. É como se eu e a máquina de escrever tivéssemos perdido todo o peso. Ela flutua à minha frente como um brinquedo luminoso".

HUNTER THOMPSON ### SCREWJACK *** EL MATADOR

Outubro 04, 2006




a familiaridade é algo que se perde
tem uma dor de cabeça que se repete
não apenas a medicina explica
mas uma sofreguidão e um cansaço que é familiar e nunca nos abandona

a familiaridade é que se perde
de algo de alguém
dos outros do trem
do passado
da revolta
da delicadez

sabe-se lá quem morrerá
quem sobrará
as esquinas nos desviam todo o tempo

imagem de beatriz milhazes

Setembro 12, 2006

Malabar - INÉDITO




Fico emputecida quando as pessoas não respeitam a minha vida. Tudo bem que moro numa caverna, mas e daí? Outro dia vieram aqui uns grafiteiros curiosos. Acho que eles estavam querendo pintar as paredes. Mas ... pô, a parede é o meu quarto! Imagina você está na sua casa e entram uns manos artistas querendo embelezar teu espaço. Fiz treta com os velhos e eles entenderam. Vi outro dia que tem uns grafiteiros que tão famosos. Passei na frente da banca de jornal. O jornalero não vai com a minha cara porque eu espanto a freguesia dele, mas eu gosto de saber as novidades, ver os homens bonitos nas capas de revista. Eu falo um pouco sozinha, às vezes brigo com os meus companheiros. É engraçada a reação das meninas de família. Elas ficam com um olhar aterrorizado quando treto com o Soldadinho. Ele é o diabo, vixe! A gente se pega de corpo e alma. Não tem pra ninguém! Tem vezes que não saio de casa. Fico aqui na galeria batendo siririca e tomando pinga. Eu mesma dei o nome, Malabar. É bonito, não? Tem a ver com o meu passado, mas isso eu conto outra hora.
Eu já desisti dos homens. Como todo mundo, achei que teria um companheiro - não um cachorro, porque isso todo mundo tem - mas um cavalheiro mesmo, que me cobrisse no frio e esquentasse minha comida. Mas não deu e não vou chorar as mágoas. Não sou difícil. Gosto do sorriso das pessoas. Até sorriso desdentado eu acho bonito. Sorriso não é dente assim como olhar não é olho. Aí fica fácil me conquistar. Apesar que eu sou meio seletiva com as pessoas. Não é qualquer um que vai entrando na minha vida. Tem que ter balanço. Tem que ter ginga.
O Soldadinho me protege. Ele fica gritando na minha cabeça: BOTA PRA FORA BOTA PRA FORA. E fica xingando todo mundo de desgraçado. O problema é que só eu ouço. Aí eu fico louca da vida, mando ele calar a maldita boca e quando vejo tô sozinha de novo. Todo mundo sai correndo. Até ladrão sai correndo de mim. Eu sou o diabo. Meu sangue é fervido. Eu vivo de tudo. Não tenho necessidade de nada. Sou amiga dos ratos e das paredes.

Agosto 24, 2006

FICÇÃO INÉDITA











A improvável mulher com desejo de se tornar alguém 100% depois de tanto trabalhar.
Ou
Uma maneira diferente de curtir o tempo livre da aposentadoria.
Ou
Natália – uma mulher off-standart.




Já sei o que vou querer fazer quando me aposentar. A idéia é bem simples. Simplesmente oposta a tudo o que já fiz. Quero ser puta. Dar a boceta e ganhar pra isso. Sempre tive uma admiração secreta por elas. Acho fascinante a maneira como elas se posicionam nas ruas, com aquele ar de senhoras de si que só as pessoas que possuem seus próprios corpos têm. Dar E receber. É a coisa mais perfeita que Deus já concebeu. Aprendi na faculdade que tem diversas maneiras de se relacionar com o mundo. Uma delas é a primeiridade. Ela trata somente do corpo. As máquinas são secundidade. Saca? Eu quero viver na primeiridade. Ganhar o mundo com o que tenho de primeiro, de primordial, intransferível.
Essa será a única maneira de eu ser absoluta e única dona de mim. É o único jeito que encontrei pra me libertar.
Quero chupar toda espécie de paus e xoxotas, de todas as cores, cheiros e formatos; quero abrir minhas pernas e estar ciente de que o mundo me pertence, que todas as línguas me chupem e eu conheça todos os países de todos os povos e nações. O mundo me contém e o meu corpo é o universo - o meu corpo. O mundo estará revestido das minhas células. Distribuirei meu néctar profundo com o máximo de desconhecidos que eu conseguir. Essa será a melhor maneira de perpetuar minha história. Ao invés de marcar minha existência cortando meus pulsos e deixando uma carta bombástica de despedida, vou simplesmente me derramar, deixando um gostinho geral de gozo na boca.
Tudo em suspensão, como se num orgasmo – com a sensação eterna do regozijo. Uma verdadeira hedonista.
Não terei família, nem amigos, nem colegas, nem conhecidos, nem mestres, nem gurus. A estrela brilhará sozinha. Pode deixar que eu pago a conta. O cheque tem fundos e submundos. Solta a música e vamos dançar. O segredo está na nuca. Debaixo do redemoinho de cabelos da minha traseira. Plim. Código aceito. Faço análise da íris, prevejo o futuro, meu bem. É! Mas não conto. Faço charminho. Pego a sua mão e acompanho as linhas atentamente. Não digo nada. O meu passado me condena. Mas agora eu sou funcionária púbica. Antes o L da palavra fodia comigo. Agora sou livre, pública.
Começo até a entender as relações de trabalho, sabe. No fundo, todo mundo quer só foder. Mas como não podem foder literalmente, o tempo todo, com todos, eles fodem de outro jeito, na porra do cotidiano, o chefe fode o subalterno, o subalterno fode o chefe. Uma fodeção só. E todo mundo sai triste.
Falta pouco pra eu me aposentar. Precisei me dedicar somente 35 anos da minha vida pra poder fazer o que realmente queria. Desde menina eu sou fascinada pelas putas. Imagina quanto tempo esperei por isso! As putas são as heroínas da sociedade. Sempre achei isso. Não li em nenhum lugar, não, apesar da frase parecer ter chegado feita. Não sou muito inteligente, mas tenho umas sacadas. A de ser puta foi a melhor que eu já tive. Uma puta sacada. Uma sacada pra se jogar e não ter ninguém embaixo pra segurar. A sacada do qüinquagésimo nono andar. Um mergulho no vazio do universo. Das coisas recônditas. HÁ! Assustei todo mundo! Bando de otários. Adoro quando os cariocas falam OTÁREO.
Ser puta pra mim é como dançar valsa. Sozinha. Suzinha, como diria uma amiga. Sempre adorei dançar valsa. Estico meus braços e dou voltas e voltas imaginando que estou no colo de Deus. Nunca gostei de dançar acompanhada. Fico irritada com a outra pessoa querendo me conduzir. Pra mim é 3 pra lá, 5 pra cá, ou X pra lá Y pra cá. Esse negócio de 2 a 2 não é comigo. Eu gosto dos números ímpares. Por isso fui trabalhar na contabilidade. Eu e os números somos assim Ó.
Bom, o fato é que terei a aposentadoria dos meus sonhos. Poucos podem ter esse privilégio. É, devo confessar.

Agosto 09, 2006


o mundo é uma esquina/ desvio de rota/ cuspe do destino/ familiaridade perdida /desalento/ o mundo não é líquido/ ele fere / agride/ sem palavras/ seu silêncio/ revira o estômago
essa geografia cínica/pontiaguda / derrota/ o já cansado/ continuum